RIO BONITO DO IGUAÇU: APÓS TORNADO QUE DESTRUIU 90% DE CIDADE, APENAS UMA MORADORA RECEBEU A CASA: TINHAM PROMETIDO UMA CASA PRONTA, COM A CHAVE NA MÃO E DAÍ ME DERAM A CASA PELA METADE.

Rio Bonito do Iguaçu, a cidade que foi completamente destruída no dia 7 de novembro de 2025, quando um tornado da categoria F4 (a segunda mais devastadora) cruzou a cidade de cerca de 14 mil habitantes. Naquele dia, os ventos alcançaram velocidades próximas dos 400 km/h. Seis pessoas morreram no município e pelo menos 750 ficaram feridas. Cerca de 90% das construções da cidade foram danificadas ou completamente destruídas, de acordo com o relatório da Defesa Civil.

“Não vivi meu luto ainda”, diz Marilda Carvalho Risse, de 60 anos, no terreno onde antes ficava a casa em que vivia com o marido. O tornado levou a casa, os móveis, os eletrodomésticos e soterrou Claudino Paulino Risse, uma das vítimas fatais daquele dia.

Os dois eram casados há 35 anos. “Eu fui duas vezes na psicóloga. Foi o que me deixou… me deu assim… Me falou bastante coisa que a gente coloca na cabeça. Mas tem horas que a gente começa a pensar e a gente perde o chão”, desabafa. “Quando penso que não vou mais poder tomar um chimarrão com ele”.

Para poder viver o luto, Marilda diz que precisa retomar alguma normalidade. Quatorze dias após o tornado, ela recebeu uma ligação do governador Ratinho Junior (PSD) e uma promessa: em dez dias, receberia a primeira das 320 casas pré-fabricadas anunciadas pelo Governo do Estado do Paraná no esforço emergencial para atender os desabrigados.

A espera acabou sendo mais longa. Ela passou alguns meses na casa de uma das filhas e, em fevereiro deste ano, Marilda recebeu a casa. “Eu me revoltei. Tinham me prometido uma casa pronta, com a chave na mão. E daí me deram a casa pela metade”, lembra. “Só tinha as paredes e o piso bruto e a luz dentro da casa. A luz do poste na casa não tinha, a água da rua na casa também não tinha.”

Depois de ir à prefeitura, ela conseguiu o revestimento para o piso. Com a ajuda do irmão e lembrando o que havia aprendido com o marido, que era pedreiro, ela mesma fez o rejunte e concluiu o acabamento. Levou mais um mês até que a casa tivesse condições para que ela se mudasse.

Os itens dentro da casa vieram de doações, que continuam chegando.

As casas pré-fabricadas seriam destinadas aos moradores que tiveram os lares completamente destruídos, mas que são proprietários do terreno. Até o momento, Marilda foi a única moradora a receber uma delas.

O contrato emergencial firmado entre a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) e a empresa Tecverde tem valor de R$ 43.969.024,00 e previa a construção de 320 casas neste modelo, com estrutura feita em uma mistura de madeira, gesso e fibra de vidro.

Cada casa de cerca de 50 metros quadrados custaria à Cohapar R$ 137.403,20.

No entanto, muitos moradores recusaram o modelo de habitação escolhido pelo governo e optaram por receber o benefício do programa Reconstrução, que oferece aos moradores um valor de até R$ 50 mil para obras.

Na época, o governo informou que 189 unidades prontas no estoque da Tecverde seriam levadas imediatamente para Rio Bonito, conforme as áreas de construção fossem liberadas pela prefeitura e pela Defesa Civil, após limpeza e terraplanagem. As demais casas seriam produzidas em um prazo de até 90 dias.

No final de março, no entanto, a Cohapar informou que, das mais de 300 casas disponibilizadas para a cidade, o número final ficou em 50 unidades. Destas, o governo afirma que 19 estão em fase final de obras, com entrega prevista para o início de abril. O contrato deve passar por alterações para que a empresa receba apenas o equivalente às 50 casas, considerando o valor por unidade do contrato anterior.

O Ministério Público do Paraná tem questionado o valor e a estrutura das casas oferecidas pela Cohapar em um inquérito civil. Entre as supostas irregularidades, o MP apura suspeitas de “sobrepreço, superfaturamento e violação aos princípios da Administração Pública na contratação e execução de unidades habitacionais pela empresa Tecverde, sob gestão da Cohapar”, conforme o documento da ação.

O MP pede explicações, por exemplo, sobre o prazo de vida útil das casas. No inquérito, o promotor de Justiça Carlos Bitencourt questiona quais as “garantias técnicas de durabilidade e habitabilidade do sistema” adotado na construção das residências.

O Ministério Público investiga também o fato de itens essenciais, como pisos, forros e sistema de esgoto, não constarem nas casas entregues. E aponta que o custo com essas partes da obra “foi indevidamente transferido a famílias em situação de extrema vulnerabilidade.”

Em entrevista ao g1 e à RPC, o promotor afirmou que os técnicos do MP estão em processo de avaliação sobre a qualidade dessas habitações. “É importante que a população tenha acesso a essas casas, mas o direito à moradia contempla o fornecimento de casas adequadas a essa população”, defende Bitencourt.

Procurada, a Tecverde afirmou que as edificações “são produzidas utilizando o sistema construtivo light wood frame, um método industrializado consolidado no Brasil e no exterior, especialmente em países como os Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Japão”. Segundo a empresa o projeto atende aos mesmos critérios de segurança estrutural, conforto térmico e acústico, durabilidade e vida útil da construção convencional.

A empresa diz ainda que “o período de garantia atende integralmente à legislação vigente e às normas técnicas, incluindo a ABNT NBR 15575 (Norma de Desempenho), que estabelece critérios de durabilidade, segurança e desempenho para edificações habitacionais.”

O presidente da Cohapar, Jorge Lange, afirma que o convênio feito com a prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu prevê que o município fique responsável pela ligação de água, esgoto e energia, além da instalação dos pisos.

Disse ainda que a decisão de entregar as casas sem o acabamento foi revista. “Como a gente fez uma contratação emergencial muito rápida, foi utilizado o processo normal, que a gente faz inclusive em casas financiadas. Não se pensou naquele primeiro momento nessa possibilidade”, diz Lange. “Entendendo aí o desenrolar dessa situação, nós, também em parceria com o prefeito, já conseguimos doações. Agora, todas as 19 casas [em obras] e as outras que vão ser construídas lá no Campo do Bugre serão todas entregues já finalizadas, com piso, com todo o acabamento interno da casa”.

O aposentado Edamir Kades é um dos moradores que recusou a oferta da casa da Cohapar. “Não tem nem condições do cara morar dentro, né? É muito pequena. Daí estamos tentando construir assim. Um pouco de ajuda de alguém e mão de obra do meu compadre”, conta.

No entanto, Edamir diz que ainda não recebeu o benefício do programa Reconstrução. “Se viesse aquilo lá [benefício], pelo menos terminava a casa. Vai saber quando que eu vou terminar isso daí.”

Questionado sobre o caso da família Kades, o governo do estado respondeu que Edamir constava ainda em novembro na lista de beneficiários do auxílio Reconstrução. De acordo com o governo, o dinheiro ainda não foi liberado porque o morador questionou o valor estimado para o benefício na primeira vistoria. “A segunda vistoria foi realizada e o pagamento ajustado para a cota máxima, no valor de R$ 50 mil, que será liberado nos próximos dias”, diz a nota do governo.

Fonte: Por Douglas Maia, Helena Krüger, Bruno Fávaro, Mariana Dantas, g1 PR e RPC/ Foto: Foto: Maycon Hoffmann

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